Denise Abreu fala sobre a crise da VarigLog no Senado
Publicada em 11/06/2008 às 12h49m
Henrique Gomes Batista e Adriana Vasconcelos - O Globo
BRASÍLIA - Em seu depoimento na Comissão de Infra-Estrutura do Senado, a ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Denise Abreu levantou suspeitas sobre a atuação do ex-presidente da Anac, Milton Zuanazzi. Ela disse que nas duas vezes que se declarou impedida de votar sobre a venda da VariLog por haver representações e mandados contra ela, Zuanazzi deu telefonemas que em poucos minutos resultaram na retirada da representação e do mandado de segurança. Isso teria permitido a aprovação pela Anac da transação comercial.
Em mais de uma hora de depoimento, Denise repetiu as denúncias que já tinha feito contra a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, a quem acusa de estar envolvida em irregularidades na venda da VarigLog e da Varig ao fundo americano Matlin Patterson em sociedade com três brasileiros.
Ela também como conheceu Valeska Teixeira, filha do advogado Roberto Teixeira, amigo de Lula. O escritório Teixeira Martins tinha como clientes os compradores da VarigLog.
- No Rio, uma advogada chamada Valeska Teixeira, gostaria de falar comigo. Ela estava muito agitada, nervosa e brava. Ela ponderou sobre as exigências no ofício de uma forma bastante irreverente para um advogada frente ao poder concedente. Ela disse que era amiga de José Dirceu e afilhada do presidente Lula e eu disse que isso era ótimo para a vida pessoal dela, mas que não mudaria a minha posição - disse Denise.
" Ela disse que era amiga de José Dirceu e afilhada do presidente Lula e eu disse que isso era ótimo para a vida pessoal dela "
- Eu não ia recuar porque havia um relacionamento com a presidente da República. E expliquei que se ela quisesse se insurgir contra o ofício, que ela entrasse com um mandado de segurança - acrescentou.
Mas não apresentou documentos, embora tenha chegado com uma mala que estaria cheia deles.
Ela disse que foi transformada em bode expiatório dos problemas no setor aéreo na época da crise da Varig.
- Fui sim transformada em bode expiatório para os problemas - afirmou Denise, aproveitando para afagar a imprensa ao dizer que a mídia "não foi culpada por isso".
Ela também que pode ter havido ingerência na atuação do procurador-geral da Anac, João Ilídio.Segundo Denise, a diretoria da Anac recebeu em abril de 2006 a responsabilidade de elaborar um plano de contingência para evitar problemas no caso de quebra da Varig. Denise e o também diretor Jorge Velozo foram então designados pelo presidente da agência, Milton Zuanazzi, para elaborar esse plano.
Denise Abreu reclamou que nessa época começou a circular um boato de que ela e Velozo estariam rateando as rotas da Varig em favor da TAM e da Gol. Ela e Velozo teriam sido chamados então à Casa Civil, onde teriam ouvido da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que eles estavam fazendo lobby em favor das duas companhias aéreas.
- Eu não ouviria uma declaração de que eu faço lobby sem contestar. Eu não ficaria calada. Então eu constatei dizendo que nós havíamos recebido uma ordem governamental para elaborar um plano de contingência - afirmou.
" Fui sim transformada em bode expiatório para os problemas "
A ex-diretora contou que nessa mesma época foi incluída no grupo de trabalho que discutia a venda da Varig. Nesse contexto, contou Denise, ela incluiu exigências para a transação e regras para possíveis compradores, o que causou insatisfação no governo.
Denise Abreu contou que era chamada de "dinossaura do direito" por suas exigências, mas acrescentou que suas posição estavam embasadas por pareceres do então procurador-geral da Anac, João Ilídio de Lima Filho.
- Me foi dito que eu estava extrapolando e que, infelizmente, no país, o imposto de renda nem sempre era compatível com a capacidade financeira das pessoas físicas. Afinal, disseram, poderia haver um contrato de gaveta que daria conta do problema Porque tanta dificuldade em apresentar a documentação? Por que tantos embates judiciais? - questionou Denise.
Seguranças e mala de documentos
Denise Abreu chegou protegida por seguranças e entrou na sala da comissão trazendo uma mala de 30 quilos carregada por dois funcionários do Senado.
- Estou segura, estou tranqüila e trouxe os documentos - disse Denise Abreu, logo que chegou ao Senado.
Durante o depoimento, funcionários da Varig protestaram com cartaz em chinês.
A ex-diretora da Anac afirmou ainda que demorou "a compreender as verdadeiras razões que levaram o governo a arquitetar a renúncia de toda a diretoria da Anac". Ela criticou o argumento segundo o qual a troca tenha sido parcialmente motivada pelo interesse do então novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, de renovar a diretoria da Agência. Segundo ela, por trás dessa "desculpa" estava uma disputa travada no governo.
" Estou segura, estou tranqüila e trouxe os documentos "
Ela confirmou ter procurado os senadores Sérgio Guerra (PSDB-PE) e Tasso Jerissatti (PSDB-CE) para falar das perseguições que sofreu depois que deixou o cargo e também do dossiê recebido em novembro de 2007.
Segundo Denise, o dossiê foi entregue na casa da mãe dela e também envolvia outros colegas de trabalho. Os documentos relatavam a existência de contas bancárias no Uruguai, com remessas de dinheiro e também o uso de cartões.
Jamais tive essas contas e tão pouco esses cartões - disse a ex-diretora.
Em resposta ao líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR, ela negou a autenticidade de um dossiê em inglês que teria sido feito contra ela com informações de contas bancárias internacionais e gastos com cartão de crédito.
- Senador, olhando nos seus olhos, eu jamais tive conta internacional, eu jamais fiz remessa de dinheiro. Evidente que fui vítima sim de pressão psicológica, pressão que visava me calar - afirmou.
Dilma e Zuanazzi também vão prestar depoimento
O senador Marconi Perillo (PSDB-GO) abriu a sessão da Comissão de Infra-estrutura com meia hora de atraso. O tucano começou os trabalhos explicando que o juiz da 1ª Vara Empresarial do Rio, Luiz Roberto Ayoub, e o ex-procurador da Fazenda Nacional Manoel Felipe Brandão, que também foram chamados para a audiência, entregaram justificativa para a ausência. Perillo informou ainda que, apesar de convidado, o ex-diretor da Anac Jorge Velozo não foi encontrado pela comissão.
Além deles e de Denise Abreu foram convidados para falar no Senado o também ex-diretor da agência Leur Lomanto, o ex-presidente Milton Zuanazzi e o ex-procurador-geral do órgão João Ilídio de Lima Filho.