Roberta Campassi, de São Paulo
11/08/2008
Em época de jogos olímpicos, quando sobram metáforas com o vocabulário esportivo, é permitido dizer que o Brasil precisa correr uma verdadeira maratona para sediar a Copa do Mundo em 2014 - ao menos no que diz respeito à infra-estrutura de aeroportos. Contas começam a ser feitas para estimar o tamanho do esforço que o país deve fazer para abrigar o torneio mais importante do futebol, dentro de menos de seis anos.
Um estudo da consultoria multinacional Bain & Company, concluído nos últimos dias, mostra que a demanda por vôos internacionais em junho, no início da Copa, será tão grande quanto a demanda projetada para a média semanal em 2020. Ao todo, a Bain calcula que o Brasil receberá até 850 mil turistas estrangeiros, dos quais 600 mil usarão transporte aéreo. Eles fariam 1,2 milhão de embarques e desembarques internacionais nos 45 dias da Copa.
Apenas a primeira semana da Copa deve concentrar a chegada de 330 mil a 340 mil visitantes. Isso representa até 75% mais do que a média semanal prevista para janeiro de 2014 - o primeiro mês do ano é o de maior demanda internacional - e a mesma quantidade que é prevista, também por semana, para o ano de 2020. "A Copa antecipa a necessidade de infra-estrutura em aeroportos em seis anos", diz Andre Castellini, o sócio da Bain que coordenou o estudo.

No mercado doméstico, o evento deverá estimular de 1 milhão e 1,5 milhão de embarques e desembarques, melhor distribuídos entre as seis semanas de jogos. Esse volume equivale, segundo a Bain, de 5% a 15% de tráfego semanal a mais sobre o esperado para julho de 2014 - mês em que os vôos domésticos são sempre mais cheios.
Com base nas estimativas, a consultoria aponta que são necessários investimentos urgentes nos aeroportos de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e da região Nordeste. Boa parte deles apresenta, atualmente, limitações de infra-estrutura. Sem nenhuma surpresa, o maior gargalo está em São Paulo. A demanda em junho de 2014, para os aeroportos de Congonhas, Cumbica (Guarulhos-SP) e Viracopos (Campinas-SP), será de 5,2 milhões de embarques e desembarques. Atualmente, a capacidade estimada como real, de todo esse conjunto, é de 3,8 milhões, o que geraria um gargalo de 1,4 milhão de deslocamentos para o primeiro mês da Copa.
Para a absorção desses passageiros, a Bain sugere ampliações em Guarulhos e Viracopos ou a construção de um terceiro aeroporto na região metropolitana de São Paulo. Em Viracopos, são necessárias a ampliação do pátio de aeronaves e do terminal de passageiros, e a construção de uma segunda pista. Para Cumbica, propõe a expansão do pátio e a construção de um terceiro terminal.
"O fato é que, já em 2012, apenas com o crescimento natural de tráfego, a demanda ultrapassa em muito a capacidade da terminal São Paulo", diz Castellini. Até dezembro, os três aeroportos juntos registrarão três milhões de movimentos de passageiros. Em 2012, serão 4,1 milhões. Para fazer o estudo, a consultoria estimou que o tráfego aéreo crescerá 8% ao ano entre 2008 a 2022. As projeções baseiam-se no histórico de torneios anteriores, em documentos preparados pela África do Sul, que sediará o evento em 2010, e em pressupostos sobre quais cidades brasileiras abrigarão os jogos.
Há três semanas, um alerta sobre a urgência da melhoria nos aeroportos em função da Copa também foi feito pela Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag). O vice-presidente da entidade, Adalberto Febeliano, calcula que 550 mil turistas virão ao Brasil e farão quatro viagens aéreas no país, ida e volta, para ver os jogos, o que geraria quatro milhões de deslocamentos. "É praticamente o dobro do tráfego doméstico mensal atual", diz Febeliano. A Abag defende a construção de um novo aeroporto em São Paulo, algo que levaria entre seis e oito anos. A Infraero, estatal que administra os principais aeroportos no país, informou que ainda não possui estimativas sobre o tráfego aéreo para a Copa de 2014 e que o levantamento não tem data para ser concluído. Um estudo sobre o tema deve ser finalizado, até março de 2009, pela Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), que tem um termo de compromisso com o governo para levantar as demandas e necessidades geradas pela Copa. A entidade estudará 18 cidades brasileiras.
Valor Econômico



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