Acabei de receber isto por email:
26/11/2008
“A perícia de Eurico salvou a todos”
BRUNO Carvalho, de 29 anos, disse que o avião caiu quando já estava prestes a pousar no Aeroporto
JÚLIA VERAS
Depois da queda, acordar surpreso com a própria sobrevivência. O funcionário administrativo Bruno Carvalho, de 29 anos, foi uma das oito pessoas que escaparam da morte na queda do bimotor King Air B200, no bairro de San Martin, no último domingo. O acidente causou a morte do piloto Eurico Pedrosa Neto, de 47 anos, e do produtor da banda Calypso, Gilberto Silva, 46, além de deixar feridos outras sete pessoas. A conversa com a reportagem da Folha aconteceu no Hospital Português, onde ele está internado. Apenas com algumas escoriações, um ferimento na perna e uma fratura simples na coluna, Bruno passou, ontem, por uma ressonância magnética para confirmar a sua alta médica, que deve acontecer ainda hoje. Nesta entrevista exclusiva, ele conta como foram os momentos antes da queda, o esforço do piloto para evitar o acidente e quais as sensações que ele viveu em meio aos destroços.
Como foram os momentos antes de você entrar no avião?
Eu estava no Recife por causa do nascimento da minha filha. No sábado, recebi o convite de Eurico para acompanhá-lo nessa viagem. Quando chegamos em Teresina, não fomos à festa. Saímos para jantar, conversamos bastante sobre as nossas perspectivas na aviação. Ele era como um padrinho, me deu muita força nesse caminho. Voltamos ao hotel e, na manhã seguinte, fomos para o aeroporto. Saímos da cidade por volta das 9h.
Conhecia os passageiros?
Não pessoalmente, sabia os nomes. Sei também que o avião foi com cinco pessoas e voltou com dez.
Quando o avião começou a apresentar algum problema?
Justamente quando estávamos prestes a pousar no Aeroporto (Internacional do Recife/Guararapes - Gilberto Freyre), o comandante percebeu uma perda de potência no motor esquerdo. Ele avisou à torre de comando que estava em uma emergência. Logo depois, perdeu-se também a potência do motor direito. Daí ele tentou procedimentos de emergência, como reativar o motor. Fomos perdendo altitude. Ele tentou manter o planeio da aeronave, chegou a recolher o trem de pouso e aterrissar em um lugar mais plano possível. A perícia dele foi o que salvou a minha vida. Infelizmente, ele não sobreviveu, mas salvou a todos nós.
Tem idéia de quanto tempo se passou do momento em que se percebeu a pane até a queda?
É difícil de lembrar, mas acredito que de trinta a quarenta segundos. Foi feito o possível nesse pouco espaço de tempo. O comandante conseguiu manter-se concentrado em achar um lugar para pousar - chegou a cogitar-se achar um mangue, mas não foi possível, a aeronave estava com pouca velocidade.
A que altura vocês estavam?
Estávamos a uns 400 metros, já na rampa de pouso.
E os outros passageiros?
A essa altura, acho que não tinham percebido direito. Apesar de um dos motores ter falhado, o que dá uma assimetria no vôo (o avião pende para um lado), o comandante conseguiu compensar esse movimento, forçando com o pedal, para manter o avião no ar. Dava para ver a força que ele fazia na expressão dele. Foi um herói que salvou todo o mundo. Só depois que falei aos passageiros para eles ficarem em posição de emergência que eles se apavoraram. Recordo também que tentei afivelar a parte superior do cinto de segurança de Lico (Eurico) - ele pousou apenas com parte desse equipamento.
O cinto completo poderia tê-lo salvo?
Não sei dizer, porque o avião caiu para o lado dele e do Gilberto, que estava artrás dele. Parece, inclusive, que Gilberto trocou de lugar com a moça, não lembro bem. Eles absorveram todo o impacto. Às vezes, é comum o comandante tirar parte superior do instrumento de segurança para não ficar incomodando e depois colocar de novo na hora do pouso.
Chegou a pilotar a avião?
Não, só o acompanhei. Todo o trabalho, o pouso, a questão do abastecimento, tudo foi ele quem executou. A aeronave era do tipo Single Pilot, poderia ser pilotada por uma única pessoa.
Você se lembra do momento da queda?
Estava consciente até o primeiro impacto nas casas, onde acho que a asa direita bateu primeiro. Depois, já acordei no chão, dentro da cabine. Nem senti dor. Despertei com o movimento lá fora, com o fogo, a fumaça. Quando senti os braços e pernas, pensei: “Meu Deus, estou vivo”. O cinto estava me enrolando e puxei com força até me libertar. Lembro de alguém me levantar, me erguer pela janela. Havia labaredas muito altas e, por isso, medo de explosão. As pessoas me levaram para fora, houve uma correria. Jogavam água para apagar o fogo. Havia muita gente, pessoas ajudando. Mas também houve saque. Foi uma coisa de louco. Arrancaram pertences de outros passageiros, carteira, relógio. Perdi minha bolsa, mochila. No começo da tarde, a operadora do cartão de crédito já estava ligando para mim, querendo confirmar uma compra que eu não fiz. Sumiram dinheiro, documentos importantes que sei que não vou recuperar. Mas, enquantos alguns saquearam, outros ajudaram. Um rapaz, Rômulo, ajudou muito. Uma senhora que me acolheu na casa dela, ligou do telefone dela para minha mãe para tranqüilizá-la. Fiquei muito grato.
Depois da queda, chegou a ver o piloto ao seu lado?
Ele estava abaixo de mim, com a cabeça de lado. Lembro de gritar para tirarem ele também. Houve um momento em que pensei que a aeronave ia explodir. Saí o mais rápido que pude, as pessoas também corriam. Me deixaram em uma casa, deitado em uma prancha, até o socorro chegar. É preciso dizer que os bombeiros e o Samu chegaram muito rápido, o que deve ter ajudado a salvar muitas vidas. Caímos por volta das 11h15 - estávamos com previsão para pousar no aeroporto por volta das 11h - e o socorro chegou pouco depois disso.
Do que você compreende do assunto, tem idéia do que pode ter acontecido? A possibilidade de pane seca foi cogitada por muitas pessoas.
Pelo que conheço dele, acho improvável, só se houve algum vazamento ou entupimento que não tenham sido percebidos. Mas, claro, nenhuma possibilidade pode ser excluída. Só a Seripa, com o fim das investigações, poderá concluir o que houve, para que isso não volte a acontecer com ninguém.
Você conhecia esse modelo de aeronave?
Sim, era um excelente avião, conhecido mundialmente pela qualidade técnica de vôo e também pela segurança que oferece aos tripulantes. A máquina estava em boas condições, o vôo até aquele momento, tanto na ida quanto na volta, era estável e tranqüilo. Estava tudo perfeito e, de repente, houve a queda de potência. Pegou todo o mundo de surpresa.
Alguma vez, chegou a pilotar esse modelo?
Não. Conhecia a aeronave, mas não tinha muita experiência de vôo, não teria condições de voar com ela.
Você continua sonhando em ser piloto?
Sim, tenho esse desejo desde de pequeno, e já fiz vários cursos para alcançá-lo. Fui para São Paulo com esse objetivo, e não vou parar, não vou desistir. Quero voar, ainda pretendo me tornar piloto.