O maior de todos os paradoxos é o fato de que a agência manteve todo seu foco na liberação geral dos voos, sem que houvesse uma contrapartida em defesa da reativação do aeroporto internacional. A agenda da Anac parece ser una. O confronto poderia ter sido evitado se a autarquia tivesse compreendido a importância da preservação dos voos no Galeão e afirmasse que a reabertura do Santos Dumont para outras rotas estaria condicionado à manutenção das atuais frequências, sem possibilidade de existirem migrações de voos e nem cancelamento de frequências. Quem desejasse voar no Santos Dumont, teria de manter, como pedágio, sua rotas no aeroporto da Ilha do Governador. Essa seria a solução mágica e salomônica.
O que não pode é a Anac abrir a porteira do aeroporto central e promover um estouro de boiada, com uma revoada de operações para um novo destino. A retomada dos voos de longo curso para o Rio foi em decorrência das conectividades. Boa parte dos passageiros que chegam da Europa e dos Estados Unidos seguem para destinos além-Rio. A existência dessa malha é que permitiu a programação dos voos internacionais.
É preciso lembrar que o Rio estava ficando isolado do resto do mundo. Só a TAP passou a operar 15 voos semanais para a Europa. Air France, American Airlines e Delta Air Lines também voltaram com peso ao Galeão e isso não ocorreria se não houvesse voos domésticos que alimentassem as freqüências nos dois sentidos.
O governador Sérgio Cabral ganhou o respeito do setor do turismo pela sua corajosa posição pública. Apesar de alguns exageros verbais, no calor dos embates, ele ousou defender a atividade, com a qual, aliás, iniciou sua carreira, na década de 80, ao ocupar uma das diretorias da TurisRio.
Por ser oriundo do turismo, o governador sabe que as consequências do enfraquecimento do Galeão poderá ser nefasta para a cidade às vésperas da Copa do Mundo e do processo de candidatura para as Olimpíadas de 2016.
O Rio precisa de mais voos, afinal qualquer destino turístico cresce ao receber mais voos. Mas não se pode fazer isso sem preservar o equilíbrio e uma conquista árdua dos últimos cinco anos, que foi a reativação do aeroporto do Galeão.
Infelizmente, a sociedade tem uma memória curta. Existe uma verdadeira amnésia coletiva que apaga da mente as imagens de um Galeão com voos de conta gotas, com raras frequências domésticas e com filas intermináveis de taxistas esperando por um único passageiro. As lojas permaneciam vazias e um dos setores chegou a ser alugado para abrigar salas de aula de uma universidade. Tudo isso a menos de cinco anos.
Na época, a campanha de valorização do Galeão foi conduzida pelo então secretário de Turismo, Sérgio Ricardo de Almeida; pelo seu adjunto Nilo Sergio Félix; pela governadora Rosinha Matheus, com o apoio do senador Fancisco Dornelles; e do ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, além do primeiro presidente da Anac, Milton Zuanazzi e de muitos outros nomes.importantes. Foi um mutirão que resultou em um sucesso que levou para Minas Gerais a mesma fórmula de reativação do Aeroporto Internacional Tancredo Neves (Confins).
Agora, a atual presidente da Anac, Solange Vieira, briga e peita o governador Sérgio Cabral. Ela impõe ao chefe do executivo carioca uma briga, que gera evidentes desgastes juntos à opinião pública leiga. Tudo isso em nome de uma liberação que ocorre sem freios e sem limites. Uma agência que ignora solenemente as sequelas que poderá trazer para o Galeão, para a cidade e para atividade turística.
Os atual quadro de gestores da Anac, que começará em breve a ter o seu plantel renovado pela caducidade dos mandatos, demonstra novamente um absoluto descomprometimento com o turismo e com a própria aviação. A própria Solange nunca esteve ligada à aviação no passado, a não ser como passageira. Hoje, age como uma expert e ficará protegida dos efeitos dos seus atos, já que o seu destino, depois da Anac, não incluirá nem o turismo e nem a aviação. Voltará ao BNDES, onde é acarinhada com cargos comissionados e deixará a batata quente que assou na mão de outros.
O governador Sérgio Cabral está agindo com coragem e como um verdadeiro integrante do trade turístico. A sua defesa, apesar de aparentemente impopular, é técnica. O que falta a todos os envolvidos é a mensagem pública de que todos querem mais voos para o Santos Dumont, desde que as empresas mantenham o quadro atual de operações no Galeão.
Cláudio Magnavita é presidente nacional da Abrajet (Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo), membro do Conselho Nacional de Turismo e diretor do Jornal de Turismo.




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