19/04/2009 - 00h00 (Outros - Outros)
por Abdo Filho
afilho@email.com.br
Na vida dele está tudo azul
O empresário norte-americano, mas nascido no Brasil, David Neeleman, fundador da companhia aérea americana JetBlue, e da brasileira Azul Linhas Aéreas, estará quinta-feira em Vitória para uma palestra promovida pela Câmara Americana de Comércio. Em entrevista para A GAZETA ele revelou já ter morado em Vitória e Linhares na juventude, mostrou-se surpreso com a situação do Aeroporto de Vitória e garantiu passagens com preços baixos.
A Azul cresceu em meio a uma forte crise econômica e consegue ter passagens mais baratas que as concorrentes mesmo sendo menor. Qual é o segredo da companhia?
Nós temos mais eficiência do que as outras companhias, com custos menores. Estamos fazendo mais com menos. Usamos um modelo de gestão com mais tecnologia, nossos funcionários são mais bem preparados e produzem mais, e procuramos andar com os nossos aviões sempre cheios. Em março, as aeronaves das concorrentes tinham uma taxa de ocupação média de 56% a 59%, e a nossa foi de 64%. Nesse mês de abril teremos mais de 70% de ocupação. Acreditamos que é melhor vender passagens para as pessoas que iam viajar de ônibus do que deixar o avião vazio.
O senhor considera as empresas de avião ou de ônibus como adversárias?
As de ônibus. Calculamos que 85% dos nossos clientes não iriam viajar se não fosse a Azul. Estamos fazendo linhas que antes não eram atendidas pelas linhas aéreas. Vitória para Campinas, por exemplo, não tinha voo direto. De Vitória para Salvador só tinha um e de madrugada, agora oferecemos um pela manhã. Diante disso as pessoas pensam: "O preço é bom, o horário é bom, acho que vou viajar". Algumas pessoas que antes só podiam ir de ônibus agora vão de avião.
O plano de negócios da nova linha aérea nacional é ambicioso. Em cinco anos, terá 78 aeronaves Embraer e pretende servir 25 cidades brasileiras. Além disso, quer chegar em 2013 com 5 mil empregos diretos gerados. Como o senhor pretende atingir todas essas metas?
(Risos) Agora já temos mais três cidades, para chegarmos a 25 não vai ser tão difícil assim. Você sabe que no Brasil os aviões são muito grandes, em média, 40% maiores do que os usados no Estados Unidos. Por causa disso, muitas cidades brasileiras ainda não têm o serviço direto. As oportunidades aqui no Brasil são muito grandes. O mercado, que hoje tem 50 milhões de passageiros, tem condições de ser três vezes maior. Se chegarmos a esse patamar de 150 milhões de passageiros o Brasil precisará de mais 400 aeronaves. Há muito mercado ainda.
O senhor considera pesada a estrutura das aéreas brasileiras?
Considero. Na TAM, por exemplo, se você dividir o número de aeronaves pelo número de funcionários, chegamos a 210 trabalhadores por avião. Nós, na Azul, temos mais ou menos 100 funcionários por avião. É menos do que a metade. Para compensar temos tecnologia, por isso, os serviços prestados são melhores e os preços mais em conta.
Como estão os primeiros resultados operacionais da Azul? Era o que o senhor esperava?
Estamos indo muito bem. Neste mês, mais de 95% dos nossos voos saíram na hora. No mês passado mais de 85 mil pessoas voaram conosco, neste chegaremos a 150 mil. De um mês para o outro é muita coisa. Estamos muito animados e felizes com o andamento das coisas, principalmente em Vitória.
Por que principalmente em Vitória?
Estamos surpresos com o sucesso que obtivemos nos voos para Campinas e Salvador.
Já há algum número?
Não separado, mas estamos felizes. Acho que os capixabas que voaram de Azul estão felizes, voltando e fazendo propaganda boca-a-boca. Está muito bom.
Por que a aviação não se transforma em um transporte de massas no Brasil, um país de proporções continentais?
Falta serviço e segmentação. Primeiro que é difícil para um executivo que viaja muito, por exemplo, fazer as conexões. O serviço oferecido complica, quem poderia viajar mais acaba não viajando. Outro ponto é a segmentação. Nosso objetivo é manter as passagens baixas. Assim como é feito no EUA temos um plano diferenciado, com preços mais baixos, para quem compra passagens com mais de 30 dias de antecedência. A tarifa é parecida com a de ônibus. Nos Estados já fazemos isso e ninguém anda de ônibus. Se comprar adiantado dá para viajar. Estamos criando ainda outros programas de crédito para que as classes mais baixas tenham acesso às viagens de avião.
Então o senhor garante que a Azul vai permanecer com passagens mais baratas?
Serão mais baratas se compradas com antecedência. Se comprar no dia complica, não tem como garantir. O que posso dizer é que sempre faremos de tudo para mantermos as aeronaves cheias. Nossa meta é bater 80% dos nossos assentos ocupados. Se isso acontecer teremos mais gente voando e a preços mais baixos.
O senhor acha que os preços, incluindo os da Gol e da TAM, vão cair ainda mais?
Os preços já estão bem baixos. Ainda mais não sei. Hoje pode-se comprar uma passagem de Vitória para Campinas por R$ 59, mais baixo do que isso acho complicado.
O Brasil tenta contornar graves problemas em sua aviação civil. O senhor conhece os problemas? O que poderia ser feito?
Conheço os problemas. Acho que a infraestrutura tem que crescer. Por isso, já fomos ao Decea (Departamento de Controle do Espaço Aéreo) e à Infraero, e muitas ações já estão em andamento para que os problemas sejam resolvidos. Temos confiança de que os órgãos responsáveis tomarão as medidas corretas.
Vamos falar um pouco do mercado de Vitória. A Azul apostou na cidade e tem rotas para Salvador, Campinas. Há planos de ampliar para Rio e Belo Horizonte e outras ligações, a partir da capital capixaba?
Vai haver um aumento da nossa malha com a entrada do Santos Dumont (Rio), mas Vitória ainda não terá voo direto para lá. Mas teremos outros destinos a partir de Vitória.
O senhor pode adiantar quais?
Não posso. Ainda estamos negociando.
O governador do Rio, Sérgio Cabral, criticou muito o senhor na época em que a Azul conseguiu a permissão para usar o Santos Dumont. Chegou, inclusive, a chamá-lo de gringo mentiroso. O que o senhor achou disso tudo?
Ele tinha uma posição contrária a de abrir o Santos Dumont para voos que não eram da ponte aérea Rio-São Paulo. Entretanto, acreditamos que um aeroporto central é muito importante e entramos na Justiça para ganhar a licença. Essas coisas acontecem. Estamos muito felizes no Rio.
Vocês já se encontraram depois de tudo isso?
Não, ainda não, mas só tenho amigos no Rio. Isso já ficou no passado.
O senhor já veio a Vitória?
Vou a Vitória nesta semana. Será a primeira vez em 30 anos. Eu servi como missionário da Igreja Mórmon em Vitória e em Linhares. Morei três meses em cada uma das cidades. Tinha 19 anos, nem falava português. Só me lembro do mar.
O senhor tem informações sobre a situação do nosso aeroporto.
Sei que é bem pequeno.
Um aeroporto tão pequeno, como o senhor prefere dizer, pode prejudicar os planos de uma aviadora de se expandir no Estado?
É claro que pode. Mas estão construindo um novo aeroporto não é mesmo?
É, mas a obra está parada.
Por que parou?
O Tribunal de Contas da União (TCU) paralisou as obras por causa de um suposto superfaturamento. As obras começaram em 2003 e a promessa era de que o aeroporto ficasse pronto em 2006, mas depois de vários atrasos e paralisações, no ano passado a obra parou de vez e uma nova licitação será feita.
É realmente um problema. Mas alguém roubou o dinheiro?
Boa pergunta...
http://gazetaonline.globo.com/index.php?id...cd_matia=509714




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