Permitam-me uma intromissão nessa discussão toda sobre o vôo da Air France acidentado, e não sei se esse seria o tópico correto:
Estou aproveitando o momento para acompanhar os noticiários no Brasil. Além disso, venho lendo tudo que surge em diversos debates e em inúmeros blogs, e a única conclusão que cheguei até agora é que há muita precipitação nas opiniões, e o pior, nenhuma delas poderá ser confirmada, por enquanto, como sendo a causa essencial para o problema que afetou aquele avião, portanto, qualquer suposta solução - inclusive, agora, até mesmo judicial - não significa que a segurança das operações será aumentada no dia seguinte. Aliás, falando sobre isso, desde cedo aprendi duas coisas: o cobertor sempre será curto quando nos referimos a segurança de vôo - caso contrário, não haveria acidente -, e a segurança plena jamais será atingida, isso seria utópico. O velho chavão "erro humano", que pode partir de todos que se envolvem com essa atividade, é mais do que óbvio que sempre fará parte desse universo da aviação, mas existe um fator que obrigatoriamente deverá ser levado em consideração, mas nem sempre é avaliado devidamente, e que pode ser chamado de vários nomes, como, por exemplo: algo imprevisível, repentino, inesperado e não previsto. E quem garante que isso não possa ter contribuído decisivamente para a queda daquela aeronave?
O que todos estão se baseando até agora é em informações fragmentadas, e não sei até que ponto alguém poderá confiar, de forma isolada, nos dados emitidos via telemetria. Mas, considerando que isso é comprovadamente eficiente, sendo assim, de duas, uma: ou param, hoje, a frota mundial de aeronaves suscetíveis à falhas semelhantes ou todos devem ter muita cautela ao fazer afirmações. Quanto à primeira opção, isso significa estacionar muitos aviões, em resumo, opção inviável, quanto à segunda, enquanto não acharem dados mais consistentes, nós estamos sujeitos a outros riscos que não foram pensados, porque trabalhos com hipóteses não consistentemente confirmadas.
Um acidente pode ser causado por coisas tão absurdas, que se não fossem comprovadas, tudo poderia partir para suposições que enterrariam aeronaves confiáveis - mas não obrigatoriamente bem operadas - no lixo. Logo me vem à cabeça um exemplo, quando um MD-11(*), o infame trijato da Douglas, poderia ter caído no mar, na região do Caribe, e se isso tivesse ocorrido e, posteriormente, não fossem encontrados os gravadores de vôo, certamente o mundo todo cairia em cima dessa aeronave, ainda mais pelo seu suposto histórico de acidentes e incidentes “inexplicáveis”, um típico avião reconhecidamente com “vida própria”, como que parece ser, agora, os aviões da nova geração da Airbus.
Hoje em dia, pelo que tenho visto, todos entendem de sistemas, de CBs, de ITCZ, de FBW, de tubo de Pitot. Do cientista ao padeiro. De pilotos que nunca botaram os pés num Airbus A330 aos nossos vizinhos, que para eles todos os aviões, do simples monomotor ao quadrimotor, são “Boing”, que antes nos perguntavam, mas hoje, simplesmente fazem afirmações e querem até mesmo nos ensinar. Muita calma nessa hora. Tem gente dizendo que esses aviões, pela sua própria natureza - projetados por engenheiros e para serem voados por advogados - são inseguros. Ora, companheiros, essas aeronaves já acumularam milhões de horas de vôos, já passaram e continuam passando por condições extremas. Decolam com vento de través e pousam ILS Cat IIIb. Enfrentam nevascas e voam em cruzeiro com condições de ISA + uma dezena de graus Celsius, com total segurança. Falhas poderão existir, isso é aquilo que podemos chamar de “pés descobertos”, em função do cobertor curto, pois foi dessa forma que ocorreu com o B737, com seus eventos de uncommanded rudder hardover, mas trabalhar apenas com especulações é tão mais perigoso do que não fazer nada.
Criticar ou especular, por si só, somente gera insegurança e medo, e eu mesmo estou apavorado quando botarei os pés essa semana para cruzar a “intertropical”, de passageiro, tamanha são as afirmações sem embasamentos concretos que andam circulando, em grandes proporções. Voarei, de agora em diante, lá trás, como um marinheiro buscando por icebergs no meio do oceano. Estou ficando com medo até de ir ao banheiro no meio da noite, porque muitos querem voltar, inclusive, ao tempo do vôo manual, porém, se esquecem que voando manual, no meio de uma trovoada, uma tripulação de um Boeing 720 perdeu o controle do avião e não foi capaz de reverter um mergulho que atingiu um ângulo de 95º nose down. Aviões se desfazem rapidamente nessas horas, principalmente quando os limites de envelope operacional são excedidos, e se tratando de aviões comerciais, com flaps recolhidos, ultrapassar os valores de -1 a +2.5 Gs é questão de segundos, principalmente sem controle, uma condição que tem contribuindo, ultimamente, da mesma forma, na falta de coordenação entre o cérebro e a língua de muitos.
Abs.
(*) O que ocorreu em Junho de 94 com um MD-11? Pois bem, em cruzeiro, o comandante saiu para o seu descanso e os dois co-pilotos permaneceram na operação. Entrou uma comissária na cabine que queria deixar uma caixa com refrigerantes. Ela tentou colocá-la no “descansa pés” do jumpseat, mas o co-piloto que estava na esquerda, ao perceber que o assento do co-piloto que estava na direita impedia a colocação daquela caixa, simplesmente comandou, sem informar o seu colega, o assento da direita para frente. Porém, esse piloto estava com as pernas cruzadas e em função disso empurrou a coluna do manche a frente, que resultou no desligamento do piloto automático e num violento movimento de nose down. Após algum tempo, conseguiram recuperar o controle da aeronave, vários ocupantes ficaram feridos e o vôo retornou ao seu ponto de origem.