Amamos muito tudo isso
No começo deste mês, o executivo italiano Giovanni Bisignani, Chairman e CEO da IATA - International Air Transport Association - apresentou novos números que reforçam a gravidade da situação da indústria do transporte aéreo mundial.
Citando a combinação nefasta de preços de combustíveis em ascenção e queda aparentemente inexorável da qualidade das receitas, Bisignani anunciou que a IATA está oficialmente revendo para pior os resultados do setor para 2009.
Constrangido, Bisignani deu números dignos de um Armageddon: as companhias associadas vão perder em 2009 - aperte os cintos - nada menos que 11 bilhões de dólares. Um prejuízo de 910 milhões de dólares por mês, ou 30 milhões por dia, ou 1,26 milhão por hora. Somando-se 2008 a 2009, a estimativa é de prejuízos de US$ 27.8 bilhões, ante uma perda dramática e inédita de US$ 24.3 bilhões no biênio 2001-2002. Ou seja, estamos atravessando um período ainda pior do que a crise pós atentados terroristas.
Não que antes da virada do milênio, o setor tivesse vivido tempos muito mais fáceis. No período entre 1909 e 2001, a margem histórica de resultado das empresas associadas à IATA é de pífios 0,3%. Ou seja, neste primeiro século da aviação comercial (inaugurado quando o primeiro passageiro pagante embarcou em um dirigível da alemã DELAG em 1909) o retorno para cada 100 unidades monetárias vendidas foi exatamente esse: 30 centavos. É isso mesmo: para cada 100 pratas vendidas por todas as associadas da IATA, ficou no caixa, descontadas todas as despesas (impostos, salários, depreciações, seguros, combustíveis, etc.) a soma de miseráveis 30 centavos.
Como visto, de 2001 para hoje, a situação piorou, e muito. Depois de 11 de Setembro, enfrentamos os conflitos no Oriente Médio. A SARS. A Gripe Suína. E, agora, essa severíssima recessão pós-debacle de Wall Street. O que faz lembrar outra frase fundamental, esta de autoria de Robert Crandall, o marechal por trás do crescimento e sucesso da American Airlines nos anos 80 e 90: "Há algo de fundamentalmente errado com um setor que não consegue remunerar nem mesmo seus custos de capital".
Tudo isto dito, convido o leitor a refletir: sob a ótica estritamente economico-financeira, o distinto conhece algum setor ou ramo de atividade econômica pior do que essa?
Diante disso, não deixa de ser um verdadeiro milagre que a atividade ainda consiga atrair e reter talentos. O que me faz lembrar de um livro que li e me fez refletir muito. Guido Sonino é o autor de "Depois da Turbulência", obra publicada em 1995 pela APVAR - Associação de Pilotos da Varig. Embora desatualizado pela inacreditável marcha dos acontecimentos desde sua publicação, ainda é leitura muito recomendada. Dentre as muitas passagens interessantes, esta vale destaque para corroborar a tese principal deste editorial. O autor diz, com todas as letras, que "a aviação é um meio povoado por sonhadores, românticos, ingênuos e desavisados."
Essa frase sempre me vem à mente quando me deparo com esses sombrios números publicados pela IATA. Somente sendo muito sonhador ou desavisado para tentar a sorte, procurar um emprego nessa incrivelmente desafiadora indústria. Vocie que nela trabalha sabe muito bem do que estou falando. Somos mal remunerados, trabalhamos em condições fisicamente insalubres, dormimos muitas noites fora de casa, acordamos na hora em que pessoas normais vão dormir, comemos de pé, normalmente horas depois da fome ter morrido de inanição e de forma geral, não temos, a mais pálida ideia de onde estaremos daqui a três dias. E, apesar de tudo, não conseguimos pensar em outra vida.
Talvez, só mesmo incluindo uma palavra à lista de Sonino: apaixonado. É a força da paixão que somente este setor desperta - tanto aos aeroviários como aos aeronautas - que alimenta nossa sede de voar, de trabalhar, de respirar o ar que somente aeroportos, hangares e aviões têm. Sim, formamos, juntos, um verdadeiro exército de mulheres de malandro: apanhamos sempre.
Mas, fazer o quê? No fundo, como diz aquela cadeia de fast-food, a conclusão é uma só: amamos muito tudo isso.
Gianfranco Beting
17/10/2009
No começo deste mês, o executivo italiano Giovanni Bisignani, Chairman e CEO da IATA - International Air Transport Association - apresentou novos números que reforçam a gravidade da situação da indústria do transporte aéreo mundial.
Citando a combinação nefasta de preços de combustíveis em ascenção e queda aparentemente inexorável da qualidade das receitas, Bisignani anunciou que a IATA está oficialmente revendo para pior os resultados do setor para 2009.
Constrangido, Bisignani deu números dignos de um Armageddon: as companhias associadas vão perder em 2009 - aperte os cintos - nada menos que 11 bilhões de dólares. Um prejuízo de 910 milhões de dólares por mês, ou 30 milhões por dia, ou 1,26 milhão por hora. Somando-se 2008 a 2009, a estimativa é de prejuízos de US$ 27.8 bilhões, ante uma perda dramática e inédita de US$ 24.3 bilhões no biênio 2001-2002. Ou seja, estamos atravessando um período ainda pior do que a crise pós atentados terroristas.
Não que antes da virada do milênio, o setor tivesse vivido tempos muito mais fáceis. No período entre 1909 e 2001, a margem histórica de resultado das empresas associadas à IATA é de pífios 0,3%. Ou seja, neste primeiro século da aviação comercial (inaugurado quando o primeiro passageiro pagante embarcou em um dirigível da alemã DELAG em 1909) o retorno para cada 100 unidades monetárias vendidas foi exatamente esse: 30 centavos. É isso mesmo: para cada 100 pratas vendidas por todas as associadas da IATA, ficou no caixa, descontadas todas as despesas (impostos, salários, depreciações, seguros, combustíveis, etc.) a soma de miseráveis 30 centavos.
Como visto, de 2001 para hoje, a situação piorou, e muito. Depois de 11 de Setembro, enfrentamos os conflitos no Oriente Médio. A SARS. A Gripe Suína. E, agora, essa severíssima recessão pós-debacle de Wall Street. O que faz lembrar outra frase fundamental, esta de autoria de Robert Crandall, o marechal por trás do crescimento e sucesso da American Airlines nos anos 80 e 90: "Há algo de fundamentalmente errado com um setor que não consegue remunerar nem mesmo seus custos de capital".
Tudo isto dito, convido o leitor a refletir: sob a ótica estritamente economico-financeira, o distinto conhece algum setor ou ramo de atividade econômica pior do que essa?
Diante disso, não deixa de ser um verdadeiro milagre que a atividade ainda consiga atrair e reter talentos. O que me faz lembrar de um livro que li e me fez refletir muito. Guido Sonino é o autor de "Depois da Turbulência", obra publicada em 1995 pela APVAR - Associação de Pilotos da Varig. Embora desatualizado pela inacreditável marcha dos acontecimentos desde sua publicação, ainda é leitura muito recomendada. Dentre as muitas passagens interessantes, esta vale destaque para corroborar a tese principal deste editorial. O autor diz, com todas as letras, que "a aviação é um meio povoado por sonhadores, românticos, ingênuos e desavisados."
Essa frase sempre me vem à mente quando me deparo com esses sombrios números publicados pela IATA. Somente sendo muito sonhador ou desavisado para tentar a sorte, procurar um emprego nessa incrivelmente desafiadora indústria. Vocie que nela trabalha sabe muito bem do que estou falando. Somos mal remunerados, trabalhamos em condições fisicamente insalubres, dormimos muitas noites fora de casa, acordamos na hora em que pessoas normais vão dormir, comemos de pé, normalmente horas depois da fome ter morrido de inanição e de forma geral, não temos, a mais pálida ideia de onde estaremos daqui a três dias. E, apesar de tudo, não conseguimos pensar em outra vida.
Talvez, só mesmo incluindo uma palavra à lista de Sonino: apaixonado. É a força da paixão que somente este setor desperta - tanto aos aeroviários como aos aeronautas - que alimenta nossa sede de voar, de trabalhar, de respirar o ar que somente aeroportos, hangares e aviões têm. Sim, formamos, juntos, um verdadeiro exército de mulheres de malandro: apanhamos sempre.
Mas, fazer o quê? No fundo, como diz aquela cadeia de fast-food, a conclusão é uma só: amamos muito tudo isso.
Gianfranco Beting
17/10/2009



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