Mercado: Crescimento do setor leva companhias a buscar executivos até no varejo.
Empresas de aviação brigam por talentos
Além da disputa acirrada pela preferência dos passageiros, as companhias aéreas brasileiras estão travando também uma batalha de bastidores pelos melhores profissionais especializados no setor. A chegada da Azul, há um ano, agitou de vez um mercado que já dava sinais de ebulição. A empresa contratou até o momento 1,6 mil pessoas, 50 das quais para ocupar cargos executivos.
Em 2016, quando a frota terá saltado das atuais 14 para 76 aeronaves, o total de funcionários deverá girar em torno de 7,6 mil (a projeção é de 100 funcionários, em média, para cada aeronave). "Ainda não está definido quantos gestores teremos no organograma quando a companhia estiver funcionando a pleno vapor, mas é certo que inúmeras oportunidades surgirão aqui dentro. Só no primeiro ano foram mais de 200 promoções internas", descreve o diretor de RH e desenvolvimento organizacional, Johannes Castellano, sócio de uma consultoria de RH até receber a proposta da Azul, motivada em grande parte pelo fato de ele ter atuado como consultor da Gol entre 2001 e 2004.
As maiores perspectivas no momento dizem respeito à área financeira, pois a Azul começa a se preparar para a abertura do capital, projetada para 2011 ou 2012. Uma das mais recentes contratações é o gerente de relatórios financeiros Renê Santiago dos Santos, 40 anos, "roubado" em dezembro da Tam, onde trabalhava havia pouco mais de dois anos. Formado em ciências contábeis, com pós-graduação em controladoria pela FGV, Santos carrega no currículo passagens pela PriceWaterhouseCoopers, C&A e o Pão de Açúcar.
Ele diz que não havia como resistir a uma proposta que alia a certeza de uma remuneração expressiva no futuro, prometida pelo programa de stock options, a um ganho expressivo para a carreira- a experiência de participar do desenvolvimento de uma empresa que nasceu para ser grande, com US$ 200 milhões disponíveis para os investimentos iniciais e um milhão de passageiros transportados nos oito primeiros meses de operação, façanha jamais obtida por qualquer outra companhia aérea no mundo. "Evitei dar espaço para contraproposta para não entrar em leilão. Apenas comuniquei à direção da Tam a minha decisão de trocar de casa e tudo se resolveu de forma amistosa", afirma.
Diante da pequena quantidade de empresas no mercado de aviação, o número de profissionais especializados é restrito e nem sempre é possível trazer alguém da concorrência - algo que, na realidade, só se revela estritamente necessário nas funções técnico-operacionais. Na maior parte dos cargos executivos, entender de aviação é apenas desejável, mas não obrigatório. O próprio presidente da Azul, Pedro Janot, ex-diretor do Pão de Açúcar e da rede de lojas de roupas Zara, está vivendo sua primeira experiência no setor, assim como outros 15 dos 50 executivos contratados pela empresa. A trajetória de Janot no varejo foi decisiva para sua escolha como o número um da nova companhia aérea, numa fase em que a crescente adesão das classes C e D tornou-se o fator mais relevante para o crescimento do mercado nacional de aviação.
Essa mesma lógica fez a mineira Daniela Guerra, 36 anos, ser contratada para a gerência nacional de marketing da Trip, outra empresa em ascensão. Ela trabalhava havia 11 anos na Tim, onde chegou ao cargo de gerente de marketing para os estados de Minas Gerais, Bahia e Sergipe. "O setor de aviação está vivendo mais ou menos o que as telecomunicações viveram há dez anos: produtos até então elitizados que se tornaram acessíveis para uma fatia bem maior da população", compara Daniela.
Em 2008, quando completou uma década de existência, a Trip estabeleceu sociedade com a norte-americana SkyWest, especializada em aviação regional, e iniciou um plano arrojado de expansão. Fechou o ano passado com 2 mil funcionários- em 2008 eram 1,2 mil. A projeção para dezembro de 2010 é chegar a 3,2 mil colaboradores. Essas contratações deverão ocorrer em praticamente todos os estados brasileiros.
Ao deixar organogramas consolidados para integrar empresas ainda em procedimento de decolagem, é inevitável que os executivos se vejam diante de estruturas mais enxutas, e isso exige adaptação. Santos, que tinha 50 subordinados na Tam, está partindo do zero para montar a equipe. "O aprendizado profissional é fantástico, mas o processo de crescer junto com uma empresa exige completa reorganização mental", diz. Na Tim, embora ocupasse um cargo de abrangência regional, Daniela tinha 19 pessoas na equipe; hoje, são sete. A gerente de marketing da Trip diz que trocou de empresa -- e de setor - pelo desafio de enfrentar o desconhecido, a possibilidade de atuação nacional e as perspectivas de crescimento, que neste momento imagina serem maiores na aviação do que nas telecomunicações.
Diminuir a concentração do mercado é uma das prováveis consequências da expansão do setor de aviação no país, tendência que já foi ligeiramente percebida nas estatísticas de 2009. As líderes Tam e Gol/Varig, que juntas detêm 85% do mercado, também estão passando por reformulações. Em 2009, a Gol demitiu dois vice-presidentes que estavam desde o início da companhia e substituiu outros dois. Na Tam, o ex-vice-presidente de Finanças, Gestão e TI, Líbano Barroso, foi confirmado em dezembro no cargo de diretor-presidente, que ocupava interinamente desde a saída do executivo David Barioni Neto, após apenas um ano à frente da empresa.
A permanência de Barroso, um profissional com larga experiência no mercado financeiro, foi interpretada pelo mercado como indício de que, numa fase de acirramento da concorrência, a companhia - que conta atualmente com 24 mil funcionários, 300 dos quais em cargos executivos - terá uma gestão bastante focada em controle de custos. Para atrair e reter talentos, a Tam aposta em trunfos que as concorrentes de menor porte ainda não podem oferecer, como a possibilidade imediata de carreira internacional. "Temos 1,7 mil funcionários e 65 executivos que estão tendo essa oportunidade", diz a diretora de gestão de pessoas e conhecimento, Agne Machado.
Para atrair talentos de outros setores e assegurar a manutenção daqueles que já foram conquistados, as companhias aéreas brasileiras estão demonstrando também maior preocupação em desenvolver programas consistentes de benefícios e de avaliação de desempenho, algo que durante muito tempo foi relegado a segundo plano. "Nós, e o setor da aviação como um todo, estamos trabalhando para chegar no mesmo patamar alcançado por empresas de outros segmentos da economia no que diz respeito ao relacionamento com os colaboradores", diz o diretor de qualidade da Trip, Evandro Fraga, com três décadas de experiência em diferentes companhias aéreas.
Tudo isso resulta no maior interesse dos jovens recém-formados em ingressar no mercado de aviação. Um exemplo está na adesão ao programa de trainees da Líder Aviação, empresa mineira que em 2008 completou meio século de existência e que, após um início centrado em fretamento de jatos para executivos, ampliou os negócios para venda e manutenção de aeronaves e transporte offshore (para plataformas petrolíferas). Multiplicou-se por dez o número de inscritos entre a primeira edição do programa, realizada em 2006, e a do ano passado, que atraiu mais de 2 mil candidatos para as nove vagas disponíveis.
No primeiro ano havia a exigência de formação em engenharia aeronáutica, mas o leque logo se abriu para outras áreas como administração, economia, marketing e cursos de tecnologia. Os escolhidos passam por um treinamento de um ano, período em que conhecem de perto cada área da empresa antes de serem destinados a um cargo específico. "Vários dos trainees que passaram pelo programa já estão ocupando cargos executivos e estão indo muito bem", orgulha-se a consultora Mônica Araújo, da Reggiani Hunting, responsável pelo processo de seleção.
Valor Econômico



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