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Estrombótico e Esfalfado.


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2 replies to this topic

#1 J.Leo

J.Leo
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Posted 03 de March de 2010 - 18:38

Estrambótico e Esfalfado.

Adorar aviação é passar horas e horas sozinho, debruçado em um terraço, para poder ver os aviões de perto, subindo ou descendo, é sentir o cheiro do querosene, é ouvir os burburinhos característicos dos aeroportos, é conhecer cada aeronave em seus mínimos detalhes, logo, este era o meu programa favorito, na década de 70, no acanhado terraço do aeroporto da Pampulha.
Li em algum lugar, que não escolhemos nossas paixões, elas simplesmente acontecem, nos levando a arquiteturas impensadas... A ponto de em uma manhã, às seis horas de um belo sábado, acordar minha mãe e lhe dizer que estava indo jogar bola com o pessoal do colégio, em um bairro distante e que voltaria ao final do dia. “Mas que futebol que nada”. Fui em direção ao aeroporto, bilhete em mãos e vôo marcado para o Rio às oito da manhã, pela Vasp.
Vi aquele mesmo terraço que me era familiar em seu inverso, marinheiro de primeira viagem, viajando escondido, e saciando um desejo latente, aos 16 anos de idade, uma satisfação rara. Naquele já distante sábado, passei todo o dia no velho Galeão, debruçado no terraço, vendo os aviões de perto, subindo ou descendo, senti o cheiro forte do querosene, comparei cada aeronave vista e escutei todos os burburinhos possíveis. À tardinha voltei para casa, com o coração e me sair pela boca, tamanha era a emoção pelo desejo saciado, até hoje, repasso na memória cada segundo vivido. Atualmente cuido de outros afazeres profissionais, distintos à vontade de ontem, mas o sentimento continua forte, nestes mais de 35 anos, desde o meu primeiro vôo.
Dentro da aviação podemos acumular uma grande variedade de experiências, uma em particular gosto de narrar, foi quando de meu primeiro vôo internacional. Estava em direção aos EUA, atravessávamos o mar do Caribe, quando o capitão fez sua voz ecoar, pela cabine, avisando-nos que o nosso vôo, por motivos de força maior, teria de ser desviado. Rumamos para Kingston, capital da Jamaica, por uma espera de solução, ao caos que se estabelecera entre os passageiros, logo após o aviso que a Vasp fora proibida de aterrissar em Miami. Um sentimento próprio dos jovens, resultado de qualquer circunstância inesperada, me tomou a mente... Aventura.
Como dizia minha avó, o que começa estrambótico, termina esfalfado, era o caso, deixamos o Galeão às 03:00h da matina, em um vôo que se iniciou em Congonhas às 01:30h, cá pra nós, um horário nada habitual. Às 06:00h fizemos outra escala em Manaus, onde permanecemos por volta de 45 minutos, para logo em seguida retomar a direção de Miami.
Por volta de 09:30h sentimos o calor caribenho intenso, invadindo o B737-400, já em solo jamaicano. Como não havia “fingers” para desembarque, nem tampouco ônibus, para o transporte, fomos a pé até o terminal, cerca de 30 metros, acredito por não ser um vôo regular, e sim uma emergência, nos colocaram em uma posição afastada.
Fomos avisados que prosseguiríamos a viagem pela Jamaican Air Lines, em horário marcado para as 17:00h. Entre as palavras de baixo calão proferidas, a revolta se instituíra. Estávamos em frente ao balcão da companhia jamaicana, a esta altura, apoderada pelos tripulantes da Vasp, que não tinha representação naquele país. Dirigi-me a um dos tripulantes, que tentavam ordenar o levante, perguntei se era possível sair do aeroporto e conhecer a cidade, ao invés de ficar plantado na sala de espera. O aeroporto de Kingston em 1985 me lembrou muito, o Galeão de final da década de 60, por fim, fui liberado para o passeio, obedecendo aos trâmites imigratórios legais.
Contratei os serviços de um taxista rastafari, me vindo à mente, logicamente, a lembrança de Bob Marley, morto havia 4 anos. A Jamaica é um país, eu diria... Diferente. Assim como o vizinho Cuba, é um país insular. Foi descoberto pelos espanhóis, e tomado pelos ingleses no século XVII, nos dois séculos seguintes, foi o maior produtor de açúcar do mundo, usando para tanto, a mão de obra escrava. No século XIX, as constantes rebeliões, culminaram na abolição da escravatura, a população negra representava mais de 90% da totalidade. A partir de 1962, tornou-se nação independente, sendo o 3º maior país de língua inglesa das Américas, atualmente com quase 3 milhões de habitantes. Se pudéssemos fazer uma comparação entre Brasil e Jamaica, o referencial seria sem dúvida, Salvador na Bahia.
Em meu passeio pela capital jamaicana, e com grande dificuldade de entender o taxista, meu inglês de então, era o básico dos básicos, fiquei decepcionado. Esperava ver pujança e o que vi, foi um país em pior condição que o meu. Há de se levar em conta também, o meu precário grau de conhecimento à época. Após hora e meia de passeio, não havia muito que se ver, além de estar com aquela impressão de o taxista rastafari, estar me levando pelos mesmos caminhos já há algum tempo, então, pedi que me levasse de volta ao aeroporto.
No retorno à sala, onde se amontoavam os passageiros do vôo desviado, e em meio a um calor insuportável, ficamos a trocar lamurias, até o embarque em um B727-100 caindo aos pedaços, da companhia jamaicana. Apesar dos pesares, o trecho final da viagem, transcorreu normalmente.
Em solo americano, o desembarque feito pelo “finger”, e sentindo o ambiente suavizado pelo ar condicionado, fomos passeando de trem pelo aeroporto, até o terminal de desembarque. Uma diferença terrível, se possível fosse a comparação com Kingston. Todavia, os nossos minutos no éden, estavam em contagem regressiva, assim, que chegamos frente à imigração.
Perguntavam-nos o motivo da troca de aeronaves na Jamaica, não sabíamos exatamente a resposta. De imediato, fomos todos, enviados às salas de triagem da policia. Para a minha entrevista, foi designada uma policial, muito bonita, diga-se de passagem, e com um português impecável, pois, havia morado vários anos no Rio. Não se cansou em perguntar, o motivo de minha ida aos EUA via Kingston. Não conseguindo uma resposta sastifatória, passou a me argüir sobre o porquê de minha ida. Pensava cabisbaixo com meus botões, poxa, vou ser deportado em minha primeira viagem ao exterior. Lá pelas tantas me pediu que tirasse todos os pertences do bolso, fuxicando minha carteira, encontrou meu cartão de crédito. Imediatamente chamou seu superior, que lhe deu um sinal positivo.
Logo em seguida estava liberado, à custa de meu cartão de crédito, que somente não ficou no Brasil por esquecimento, uma vez que, naqueles idos tempos, os cartões brasileiros não tinham validade internacional, era em minha carteira, simplesmente um estorvo. A policia imigratória não tinha conhecimento desta limitação, o capitalismo americano falou mais alto, analisaram somente a minha possibilidade de consumo, mal sabendo eles que levava comigo, apenas a conta do chá.
Em seguida às aventuras a bordo dos aviões da Vasp e Jamaican e deixando de lado o último trecho do bilhete, Miami-Orlando, segui de carro, por via das dúvidas.


#2 FlávioBHZ

FlávioBHZ
  • Membro Honorário
  • 9,311 posts

Posted 04 de March de 2010 - 16:59

Excelente J.Leo!

Aliás, me lembro quando você contou sobre essa sua passagem, se não me engano no Fórum Check-in (Flight Reports), e foi bom você ter reproduzido ela aqui pois me lembrou também de fazer um pedido a todos.

Bom, como sabem, temos diversos tópicos com essas lembranças e relíqueas espalhados pelo Fórum. Entretanto, como muitos deles são antigos, já estão "perdidos" em meio às páginas do Contato Radar. Por isso peço para que caso vocês se deparem com algum ou alguns deles e julguem ser material para o Memorabília, façam um reporte chamando a atenção do Staff para o tópico. Assim podemos avaliá-lo e, se for o caso, movê-lo para o Memorabília.

Um abraço.

#3 Bonotto

Bonotto
  • Moderador
  • 7,917 posts

Posted 05 de March de 2010 - 18:20

Muito legal as historias, e muito bem escritas !

Abraços,