Estava acompanhando há tempos este tópico e só hoje foi possível escrever.
Primeiramente, nunca saberemos a história verdade, a não ser que um dos envolvidos daquela época esteja vivo e que haja algum documento (telegrama, dossies) perdido por aí.
Eu diria que o que aconteceu entre 1961-1965 foi resultado das políticas dos anos anteriores. Nos anos 40-50 nossa aviação cresceu a um ritmo tão igual ou superior ao de hoje. Mas desde aí começaram a consolidação, com a Varig comprando a AeroGeral, Cruzeiro a TAC e Savag e a Real abocanhou diversas empresas.
Veio a crise pós-JK e viram que havia empresas demais para mercados pequenos. E qual foi a idéia do Jânio Quadros ou Jango? Estatizar tudo! Houve sérias oposições, mas bem ou mal houve sim uma consolidação: Varig-Real em 1961 e Lóide-Vasp 1962.
A Varig-Real foi a soma de 2+2-1 pois o mercado estava tão ruim que a Varig mal operou os Convairs 340 e 440, transformous os Super Connies em cargueiros e tentou a todo custo cancelar os Electras II e Convair 990. Houve uma diminuição da oferta global.
A Vasp-Lóide foi uma compra política, pois o Cel. Gibson acreditava que se Vasp fosse forte (lembremos que ele era do governo paulista) ela iria barrar qualquer tentativa de criar a AeroBras. Preferiu vender que ganhar pouco com uma estatização.
Se no mercado nacional houve um equilíbrio concentrando nas mãos da Varig, Cruzeiro e Vasp, no internacional viram que as áreas exclusivas já não serviam mais, pois a Varig herdou muita rota internacional da Real, mas quantas eram lucrativas? Rota internacional lucrativa era JFK. Agora a Panair tinha uma situação oposta: as rotas européias eram as lucrativas enquanto que o serviço amazônico era deficitário e sua participação no mercado interno diminuia cada vez mais. Mas não se enganem, a Panair ainda tinha bala na agulha.
Com a ascensão dos militares, viram que os donos da Panair eram simpatizantes de JK, além disso eles tinham a visão que era necessário uma operação cirurgica. E foi a fome com a vontade de comer: sabiam que a Varig pleitava há tempos as rotas européias, que Mario Simonsen precisava ser "atingido" no seu maior trunfo: suas empresas. E começou o planejamento do conluio.
E por que a Varig? Se fechassem a Panair, quem teria estrutura para assumir as operações? Quais as opções:
- A Vasp era uma empresa forte no doméstico, mas virgem no internacional e outro detalhe importante: os militares iam gostar que os paulistas controlassem o mercado europeu, sulamericano e doméstico? Poderia significar apenas que estavam trocando o inimigo.
- A Cruzeiro do Sul tinha uma certa experiência internacional e poderia abocanhar a Panair, mas ela ia demorar para digerir.
- A Varig já tinha experiência no long-haul e com aparelho semelhante.
- Estatizar a Panair? Como os militares iriam administrar?
Restou a opção Cruzeiro/Varig. Ambas empresas não podem ser as mentoras do crime, mas que participaram da elaboração ou sabiam dos detalhes das operações de fechar a Panair, ah isso elas sabiam, e muito! Basta ver o que Gianfranco Beting comentou sobre uma conversa com o Comandante Omar. Inclusive alguns diziam que as diretorias das empresas falavam que em 1965 elas iam dar um salto, mas sem falar como, quando e onde.
Pessoalmente, o fechamento da Panair envolveu questões políticas (Simonsen/JK), econômicas (era necessário concentrar) e do plano lá da dupla JQ/Jango de criar uma estatal. Tanto que muitas chamaram a Varig depois da Panair de Bertabrás.
Caravelle, em 27 de agosto de 2011 - 20:38 , disse:
E ao contrário da crença comum, ela não ficou com o monopólio dos voos internacionais após o fechamento da Panair, pois até 1975 a Cruzeiro (que herdou os demais voos da Panair em 1965) era independente e voava toda América do Sul. Com a compra da mesma em 1975, aí sim a Varig passou a ter o monopólio.
Caravelle, permita discordar. A Varig dominava 90% do mercado internacional contra 10% da Cruzeiro e ainda assim eram pouquíssimas rotas internacionais em que operavam juntas: Buenos Aires era servida pela SC via CGH e POA enquanto a RG voava via GIG, Montevideu era servida via POA/CGH (SC) e EZE (RG). Enquanto a Varig voava GIG-BOG/LIM direto, a Cruzeiro oferecia via BSB e MAO. E o mercado na época era muito pequeno para permitir a descentralização de rotas.
E nunca houve até os anos 90 um mercado internacional competitivo. Antes da Varig dominar o mercado internacional, já havia a divisão de zonas exclusivas onde cada uma podia operar: Cone Sul (SC), Pacífico, Caribe e Miami (RL), NYC (RG) e Europa/Africa/Oriente Medio (PB).
Uma coisa interessante foi que a ingenuidade do presidente da Vasp na época, ele queria que parte das rotas internacionais fossem para a empresa. E disse que se não permitissem, ia fechar a empresa (como se ele tivesse tal poder) e entregar para o governo militar, ironizando a atitude deles em dividir com RG/SC. O governo paulista até ofereceu que o Banespa assumisse a Vasp e bancasse a expansão dela.
x-varigvinny, em 28 de agosto de 2011 - 00:20 , disse:
Basicamente, a única coisa que a Varig aproveitou da Panair foram as rotas para a Europa e Oriente Médio e dois DC-8. Só, caput. Os Caravelles foram assumidos pela Cruzeiro junto com muitas linhas domésticas.
Só isso? As rotas para Europa sempre foi o melhor filão dos vôos internacionais.
PT-KTR, em 28 de agosto de 2011 - 11:02 , disse:
O fato é, morreu, acabou, virou artigo de colecionador, aquilo que tem na fuselagem de uns 737NG ai é apenas um fantoche. O ciclo VARIG acabou, morreu, assim como o TRANSBRASIL, o VASP... e em um futuro próximo será a MATE TAM a próxima... quando virar LAN... mundo corporativo é assim...
Concordo 100%. Gosto de comparar as empresas com os humanos. Nascemos, crescemos, desenvolvemos, envelhecemos (alguns tenta até se rejuvenescer) para depois morrer. E nunca vai haver uma pessoa/empresa igual ao que morreu, pode ser que tenham caracteristicas marcantes, mas a alma nunca será a mesma. A Varig de Constantino não tem o DNA da Varig de Berta. Assim será com a Tam, Gol, Lufthansa, Singapore, JAL, American, TWA . . .