Poderia te incluído o texto abaixo, que foi publicado no blog dele, no tópico que fala da intenção da ANAC em reduzir o tempo de reposição da bagagem em GRU, mas preferi algo à parte.
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24/10/2011
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Cumbica, 7 da manhã: “Um dia, isso aqui vai explodir...”

Passei vinte dias no exterior e voltei no meio da semana passada.
Assim que saí do avião com minha mulher, percebi que alguma coisa não estava certa. Os corredores de Cumbica, que levam ao salão da Polícia Federal, estavam lotados.
Difícil calcular com exatidão, mas eu diria que a fila para a fiscalização de passaportes tinha quase um quilômetro.
Minha mulher está grávida. Por sorte, vimos um funcionário do aeroporto conduzindo uma idosa em cadeira de rodas. Entramos num comboio com outros idosos, gestantes, e famílias com crianças pequenas. Levamos 20 minutos para chegar ao início da fila.
“Esse aeroporto não tem mais jeito”, disse o funcionário. “Um dia, isso aqui vai explodir!”
Ele me contou que os funcionários de Cumbica vivem assustados. “Todo dia é essa tensão. Ninguém consegue trabalhar assim.” E nem era feriado, mas uma quarta-feira normal. “Se você acha isso ruim, experimente chegar numa segunda ou sexta”, disse o rapaz.
Segundo ele, toda manhã, seis ou sete vôos internacionais chegam juntos, e a infra-estrutura do aeroporto não é suficiente para atender a todos os passageiros. “Não tem um dia em que não aconteça uma briga ou discussão na fila.”
Depois de passar pela PF, fomos buscar as malas. Outra cena de caos: esteiras abarrotadas, passageiros brigando. Nenhuma fiscalização. Poderíamos ter roubado as malas que quiséssemos. Ninguém checou nossos tíquetes de bagagem.
A fila para a Alfândega era outro pandemônio: uma gigantesca procissão de carrinhos abarrotados, crianças chorando e adultos a ponto de explodir. Um fiscal me disse que a fila estava demorando, em média, uma hora e meia. Por sorte, não precisamos enfrentá-la.
Depois de passar pela PF, buscar as malas e percorrer a fila da Alfândega, a última parte da saga de Cumbica é conseguir um táxi.
Na calçada, a fila do táxi demorava mais de uma hora. Novamente, tivemos sorte: havíamos deixado nosso carro num estacionamento próximo e não precisamos apelar ao táxi do aeroporto.
Um cálculo rápido: duas horas na fila da PF, uma hora e meia na Alfândega, e mais uma hora para pegar um táxi. Total: quatro horas e meia, do avião ao táxi. Sem contar o tempo que se levaria para chegar em casa, desafiando o trânsito matinal em São Paulo. Calculo, por baixo, mais umas duas horas.
É uma temeridade submeter pessoas que chegam cansadas, depois de 12 ou 15 horas de vôo, a uma tortura dessas. Fiquei com a sensação de que um quebra-quebra poderia acontecer a qualquer minuto.
Um dia, vai acontecer.
Pode ser em Cumbica, em alguma fila de banco ou algum engarrafamento na cidade.
Um dia desses, duas pessoas vão discutir. A discussão vai levar a uma briga, que acabará se espalhando por toda a cidade, incontrolável.
Já vi isso acontecer.
Foi em 1986. Sarney, Sayad e Funaro tinham acabado de anunciar o ridículo Plano Cruzado, congelando os preços.
Eu estava no Centro do Rio. No Largo da Carioca, uma multidão se aglomerava em frente ao Bob’s. Todos vaiavam um gerente, que estava remarcando os preços, à vista de todos.
Bastou um sujeito jogar uma pedra no vidro da lanchonete. A multidão invadiu o lugar, destruiu e saqueou tudo. Vi senhores de terno e gravata saindo da lanchonete com caixas de pão.
Dali, a multidão, sempre crescente, invadiu outras lojas no Largo da Carioca. Bancas de jornal foram incendiadas e carros, depredados. Nem uma livraria escapou. A polícia chegou com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo. Foi um caos.
Quarta-feira passada, em Cumbica, tive a mesma sensação. Só faltou alguém jogar a primeira pedra.
Escrito por André Barcinski às 07h57












