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VARIG: RG2342, um vôo na crise


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RG2342: um vôo na crise da Varig

LÚCIA RITZEL

Garantir que um avião decole exige das companhias aéreas uma checagem, descrita num documento conhecido entre pilotos e pessoal de terra como Mel, sigla em inglês de Lista de Equipamentos Mínimos, em que são especificadas milhares de peças.

Quinta-feira, quando o vôo 2342 da Varig desgrudou da pista do aeroporto Salgado Filho, às 7h05min, para o Rio, algumas peças não-incluídas no Mel passaram por um teste de resistência: os corações e os nervos de tripulação e passageiros.

Não houve uma turbulência sequer durante o trajeto. Em compensação, a angústia com o cancelamento de vôos e a ameaça de falência envolveram o interior do 737 numa nuvem de interrogações.

A quinta-feira dos comandantes Mario Corrêa da Costa e Carlos Suess e dos comissários responsáveis pelo serviço de bordo era um daqueles dias intermediários, véspera de desfecho e, por isso, cumprido demais. Pela manhã, havia pela frente angustiantes 24 horas, até expirar o prazo para o vencedor do leilão depositar US$ 75 milhões e carimbar a compra da Varig. Todo o pessoal a bordo do 737 que partiu da capital gaúcha está com os salários atrasados desde abril. Não sabe quem será o dono da companhia, mas tem certeza de que haverá demissões.

Maquiadas e com o uniforme impecável, as comissárias se preparavam para a maratona de perguntas dos passageiros sobre a situação da empresa e os motivos de tantos vôos cancelados. Já não há muito serviço de bordo. O café da manhã oferecido aos passageiros é simples e rápido: refrigerante, suco em caixa e meia barra de cereal.

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Na cabine de comando, entre os dois pilotos, representantes do TGV (Trabalhadores do Grupo Varig), único a apresentar oferta de compra da empresa, a conversa era sobre segurança dos vôos e cancelamentos:

- Mesmo nos piores momentos, a concentração na segurança é total. Essa é a Varig - comentou o comandante Corrêa da Costa, com um sutil tom de melancolia na voz.

- Eu estou trabalhando hoje por amor à empresa. A gente não tem certeza de nada. Mas dá pena de ver os aviões parados. E muitos colegas já não vêm, alegam não ter como bancar o transporte e os pernoites - explicou sentada no fundo da aeronave uma comissária que prefere não ser identificada.

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A quinta-feira da família Geremia, de Antônio Prado, começou antes da dos tripulantes do 2342.

- Não dormi nada na noite passada - contou Sidonia Geremia, que, aos 82 anos, voou pela primeira vez.

- Não houve jeito de ela querer viajar de ônibus, mas, de avião, concordou - explicou seu filho, Adiles.

A nona dos Geremia admitiu subir a bordo de um avião para assistir à formatura como fuzileiro naval do neto Charles, 18 anos, no Centro de Instrução Almirante Milcíades Portela Alves, no Rio de Janeiro. A formatura fez com que, além dos pais, Adiles e Terezinha, os tios Luiz e Clari e o caçula dos Geremia, Lucas, de 12 anos, decidissem voar pela primeira vez. Adiles, motorista de caminhão, diz que não entende de aviação. Comprou os bilhetes para toda a família pela Internet sem dificuldade. Mas as notícias de sucessivos cancelamentos de vôos levaram ansiedade adicional aos Geremia. Para garantir o embarque, chegaram ao Salgado Filho às 2h e passaram a madrugada conversando dentro de uma van no estacionamento do aeroporto.

- A gente ficou telefonando para a Varig para saber se o nosso avião estava confirmado. Ela (Terezinha, a mulher) já nem queria mais sair de casa - contou Adiles - sem esconder a apreensão com o regresso, previsto para às 20h do mesmo dia, também pela Varig.

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Primeiro vôo a partir do Salgado Filho para a capital carioca, o 2342 sempre teve lotação garantida. Mas o agravamento das dificuldades da Varig e os cancelamentos mais numerosos a cada dia fizeram estragos na confiança dos passageiros.

Como é pouca a disposição para o risco de atrasos, o 737 com capacidade para 136 passageiros decolou de Porto Alegre com 62 poltronas ocupadas. Muitos dos que estavam a bordo quinta-feira embarcaram contrariados. Foram remanejados por causa dos vôos cancelados e tiveram de adaptar a agenda.

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Para a médica Claudia Falconieri, a viagem no 2342 significou uma dia a menos no seminário de terapia intensiva em que expunha um trabalho, motivo de sua vinda ao Sul:

- Só ao ligar para a Varig fiquei sabendo que o vôo do fim da tarde estava cancelado. Perdi um dia importante do seminário.

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O fim das férias dos namorados Cidó Feitosa e Carolina Veras, ambos de 23 anos, foi garantido pela Gol. A empresa aérea endossou os bilhetes Varig do casal para o trecho final, de volta à Fortaleza onde moram. Depois da visita a Buenos Aires (Argentina), Punta del Este (Uruguai) e à romântica Gramado, na Serra gaúcha, os dois não consideram problema fazer escala em Recife para o trecho final com a Gol. Ruim foi não ter conhecido Porto Alegre, lamentou Carolina.

- Na vinda, o vôo da Varig atrasou e só chegamos a Porto Alegre de madrugada - contou.

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Herman Weksler e a mulher Lily usaram as milhas do Smiles para comprar as passagens para irem ver a neta Ariel, de apenas dois meses, no Rio. Conseguiram bilhetes na data planejada e, só por prevenção, Lily telefonou para a empresa e confirmou a viagem.

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Veterana dos vôos Varig, Margarida Oliveira, 74 anos, era uma das poucas passageiras tranqüilas.

- Já estou indo pela segunda vez ao Rio visitar minha filha este ano. Volto em 2007 - contou Margarida, que, por ser viúva de funcionário, viaja de graça quando há poltronas sobrando nas aeronaves.

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Acompanhado de quatro atletas, o técnico de natação do Grêmio Náutico União José Antonio Aranha conta que ficou um pouco apreensivo com a possibilidade de perder o campeonato de natação no Rio, caso o vôo fosse cancelado.

Algumas poltronas atrás, o militar da aeronáutica Alexandre Nunes não tinha certeza se conseguiria que outra empresa endossasse sua passagem até Belo Horizonte, destino cancelado pela Varig. Nunes mora em Santa Maria, mas precisava chegar à capital mineira para um curso.

- Estou com o tempo contado. Recebi uma mensagem da Varig no celular e tive sorte de conseguir ir de Santa Maria a Porto Alegre - disse.

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Apesar de a Justiça ter anulado o leilão da Varig porque o consórcio não pagou pela empresa, pelo menos uma história teve final feliz. Depois da cerimônia na Escola Naval, os Geremia assistiram à Seleção fazer quatro gols contra o Japão comendo sanduíches no aeroporto Tom Jobim. Exaustos, tiveram sorte: o vôo de volta a Porto Alegre foi um dos únicos mantidos pela companhia e ainda vieram com o recém-formado fuzileiro naval Charles, que passa um semana em casa, em Antônio Prado, antes de partir para Manaus, onde começará a carreira.

fonte: jornal "Zero Hora" 25 jun 2006

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